Mostrando postagens com marcador drogas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador drogas. Mostrar todas as postagens

28 de julho de 2010

Mãe de usuário de crack revela drama após venda de Celta por R$ 50

Mãe de usuário de crack revela drama após venda de Celta por R$ 50
Filho roubou o carro para comprar droga


Uma bem-sucedida empresária da Capital, vive, aos 58 anos, o maior drama da vida: recuperar o filho de 32 anos, usuário de crack, que, na segunda-feira, pegou o carro dela e o vendeu por R$ 50.

Mãe de quatro filhos, a mulher contou ontem o drama que vive desde que o rapaz ingressou no mundo das pedras. Sem conseguir conter o choro, ela só concordou em comentar a situação “para que sirva de alerta a outras famílias”.

Diário Gaúcho – Como começou o envolvimento de seu filho com as drogas?

Mãe – Como em quase todos os casos, na adolescência, com a maconha. Foi com colegas de colégio. Depois, passou para o crack, isso já faz uns seis anos.

Diário – A senhora não percebeu?

Mãe – As pessoas sempre acham que vão perceber fácil se um parente usa drogas, mas não é. Eu e meu marido não percebemos a coisa no começo. O pior é que as pessoas não têm capacidade de chegar para um amigo e dizer: “Ó, amigo, teu filho está usando drogas”. Quando os pais descobrem, o filho já está há muitos anos na coisa. Verdadeiro amigo é aquele que alerta.

Diário – Como é o comportamento dele (do filho)?

Mãe – Ele nunca agrediu alguém em casa, até conseguia trabalhar. É uma pessoa tranquila. A gente vê que ele fica brabo às vezes, mas na dele. Certamente perdeu muito dinheiro. Nunca havia furtado coisas de grande valor, mas de trocadinho em trocadinho, vai tudo. Trocou tênis, celular, o que tivesse por crack.

Diário – Como ele está agora?

Mãe – Ele fez tratamento vários anos, toma alguns remédios. Foi internado no ano passado, saiu em novembro. Desde então, não tinha mostrado qualquer sintoma. Até que veio essa recaída. Da outra vez que ele recaiu, anos atrás, conversamos e ele disse que sabe, naquele momento que vai usar a droga, que está fazendo a coisa errada, mas que a necessidade é tão forte que ele não consegue controlar. Chega a sentir dor física. Não estou contando isso para dizer que ele é um coitadinho, mas porque é a verdade.

Diário – Sobre a venda do carro, ele comentou algo?

Mãe – Ele está se sentindo injuriado, acha que estão acusando ele injustamente. É típico da doença. Ele jura que não fez nada. É uma trajetória à qual já estou acostumada.

Diário – O que a senhora pretende fazer agora?

Mãe – Se depender de mim, ele volta a se internar. Mas nesse tipo de situação, ele tem de concordar, do contrário, não adianta. Só espero que os meios de comunicação alertem cada vez mais as pessoas sobre essa doença. Como mãe, tendo de conviver com isso, me sinto tão doente quanto ele. É uma doença incontrolável.

- Um gesto amoroso

A empresária espera convencer o filho a se internar. Mas especialistas acreditam que, mesmo que ele não aceite, a família deve tomar a medida. E, se for o caso, buscar meios judiciais para isso.

– A família tem de se impor, mesmo contra a vontade do indivíduo. É o gesto mais amoroso que um pai e uma mãe podem fazer pelo filho – afirma o presidente da Associação Brasileira de Estudos Sobre o Álcool e Outras Drogas, Carlos Salgado, que finaliza:

– Afastar-se das drogas é difícil, mas manter-se longe delas é muito mais – continuou.

- Onde buscar ajuda

Ao descobrir que algum parente ou amigo é usuário de drogas, a saída é o apoio familiar e tratamento.

O acesso ao tratamento pelo Sus se dá por meio das unidades de saúde.

Cruz Vermelha: o atendimento é gratuito e tem grupos de apoio. Informações:
3391-5955.

Viva Voz: serviço nacional, gratuito, de orientações e informações sobre a prevenção do uso indevido de drogas: 0800-5100015.

Nar-Anon: grupos de auto-ajuda para familiares de dependentes químicos. Informações: www.naranon.org.br ou 3311-7849.


DIÁRIO GAÚCHO - 28/07/2010 06h40min
Renato Gava | renato.gava@diariogaucho.com.br

25 de junho de 2009

Crack leva irmão a matar irmão

Para salvar a mãe da morte, jovem de 28 anos assassinou o familiar a pancadas



De todas as noites em que passou em claro, a industriária aposentada Brandina de Oliveira dos Santos, 58 anos, tinha a certeza de que em uma delas uma notícia trágica chegaria da rua: pressentia que o filho não conseguiria sair do pesadelo do crack, que envolveu toda a família. Ela só não sabia que tudo aconteceria diante de seus olhos, dentro de sua própria casa, no pequeno município de Nova Hartz, no Vale do Sinos.

Quando reunia documentos para tentar a 16ª internação do filho Luiz de Oliveira Batista, 35 anos, viciado em crack havia três anos, viu o filho mais novo matá-lo com uma barra de ferro para defendê-la das agressões. Sob o efeito da droga, Luiz exigia da mãe dinheiro para comprar mais pedras e a ameaçava com uma faca, quando Mateus, 28 anos, se adiantou para defendê-la.

– Se o Mateus não tivesse feito isso, tenho certeza de que o Luiz teria matado a todos nós. Tudo isso porque eu não tinha o dinheiro que ele queria – lamentava a mãe.

Eram 22h de terça-feira, e a família se recolhia para dormir após a oração. Evangélica, dona Brandina já não esperava mais o filho naquela noite quando ouviu o estrondo na porta. Era Luiz com uma barra de ferro nas mãos. Ele queria dinheiro.

Com a negativa da mãe para os R$ 10 que virariam duas pedras de crack, o rapaz partiu para cima da aposentada com a faca de cozinha que encontrou em cima da mesa. Deu tempo de jogar uma bacia de pipocas que havia ficado na mesa no rosto da mãe e derrubar a mesa e as cadeiras da cozinha. Quando ameaçou investir novamente contra a aposentada, o irmão mais novo, que dormia no quarto, apareceu. Recolheu a barra de ferro do irmão e deu um golpe certeiro na cabeça de Luiz. Mateus continuou a bater no rapaz, já deitado no chão.

– Ele dizia que, se não terminasse com aquilo naquela hora, o irmão nos mataria. E ele faria isso mesmo, pois já tinha prometido. O Luiz me socava, me empurrava, já bateu com uma barra na minha cabeça. Achei que alguém pudesse fazer isso com ele na rua, mas nunca dentro de casa, olha o que o crack fez com a minha família – lamentava Brandina.

Eduino Planer, 57 anos, companheiro de Brandina há quatro anos, chorava e orava no quarto ao lado. O casal perdeu as contas das vezes em que teve de pedir guarida a vizinhos por medo de voltar para casa.

Este mês, porém, ela pretendia abandonar a casa e deixar o filho. Decidiu que não tinha mais condições de conviver com as influências do crack sobre o rapaz. Data do dia 2 a última ocorrência registrada pela mãe na Delegacia da Polícia Civil, relatando as agressões do filho, pouco depois de ele furtar uma bicicleta da vizinha e trocá-la pelas pedras.

– Nem rancho do supermercado a gente podia ter em casa, qualquer saco de comida fechado ele levava e trocava pela droga. Só tinha em casa o que ia para a panela. Ele levou nossos celulares, os CDs de música evangélica e até o enxoval da irmã – diz Planer.

Luiz trocou mulher e filho pelas correntes do crack

O vício fez Luiz viver para a droga. Abandonou o trabalho, o casamento e o filho de oito anos. Do lado de fora da casa recém-construída, a mãe mandou fazer um quarto para o filho que já não tinha mais horário para nada. Ao lado da cama com lençol bem estendido, dois cachimbos improvisados ficaram à mostra. Ambientada à rotina do filho com a droga, Brandina sabia como Luiz manuseava o cachimbo.

– Enquanto ele se trancava aqui, eu espiava pelas frestas, preocupada. Não tinha mais o que fazer. Ninguém sabe como é difícil ver um filho morrendo pelas mãos de outro. Mas eu tenho de ser forte pelo meu filho que fez isso para me defender – se desespera.

Mateus fugiu do local do crime, mas a família promete apresentá-lo à polícia ainda nesta semana.


Letícia Barbieri, Nova Hartz | leticia.barbieri@zerohora.com.br
Crack Nem Pensar

7 de maio de 2009

O FLAGELO DAS DROGAS

As drogas, arrisco a dizer, é o mal do século, ou pelo menos dessa primeira década do novo milênio. É estranho pensar que substância encontradas na natureza e manipuladas pelo homem possa trazer tanto estrago. É gerada uma grande rede de conexão em volta de uma pessoa drogada, os pais, familiares, amigos, traficantes, bandidos, policiais, a sociedade - sem contar os grupos formados no astral, tanto das sombras quanto da Luz. A sociedade toda acaba sofrendo as consequencias por causa das drogas, por isso afirmo ser o grande mal do século.

Há alguns dias atrás postei a notícia de uma mãe que precisou matar o próprio filho por causa do crack. Em um relato emocionante ela desabafou os problemas enfrentados por todos para conseguir ajudar o filho. Não adiantou, foi preciso o pior, para todos. Novos laços cármicos foram criados por essa família, novas provas virão no futuro.

Um novo episódio veio à tona em Porto Alegre. Outro filho drogado. Mas desta vez parece que a Luz prevaleceu sobra as falanges das sombras. O rapaz se arrependeu e o pior não aconteceu, pelo contrário, existem boas perspectivas para o rapaz e sua família.

Leia a seguir a entrevista com o pai do rapaz criado com boas condições de vida, e mesmo assim caiu diante do crack.

***


O FLAGELO DAS DROGAS
“Eles estão matando essa juventude”

Entrevista: zelador de 56 anos, PAI DE VICIADO EM CRACK

Horas depois de enfrentar traficantes para reaver a moto que o filho de 19 anos, viciado, trocara por crack, o zelador de 56 anos conversou com Zero Hora. Em 50 minutos de diálogo, o homem revelou-se destemido, disposto a dar a vida para salvar o filho das drogas. A seguir, uma síntese da entrevista:

Zero Hora – Quando seu filho começou a usar crack?

Pai – Ele tinha 18 anos. Ele andava com más companhias, aqui do bairro.

ZH – Como vocês tomaram conhecimento?

Pai – Mais ou menos em fevereiro do ano passado ele chegou para mim e falou: pai, infelizmente eu estou nesse negócio da pedra, que é muito pavoroso, mas é mais forte do que eu. Queria que tu me ajudasse.

ZH – O senhor tinha percebido algo antes?

Pai – Percebi que ele começou a não ir ao serviço, a levantar tarde, relaxar no colégio, deixou de fazer a higiene pessoal, emagreceu. Um dia eu perguntei o que estava acontecendo. Ele ficou triste, foi dormir, e não falou nada. No outro dia ele contou o que estava acontecendo.

ZH – Ele já tinha usado drogas antes?

Pai – Nunca.

ZH – Ele começou direto no crack?

Pai – Acho que ele começou na maconha e, logo em seguida, talvez um mês depois, ele passou para o crack.

ZH – O que vocês fizeram ao tomar conhecimento?

Pai – Conversei com médicos que moram no prédio. Eles me orientaram a procurar um psiquiatra para começar o tratamento. Aí começou o nosso martírio. Conseguimos interná-lo no Hospital São Pedro, onde ele ficou 33 dias. Mas, antes disso, a minha mulher largou três serviços que tinha, como doméstica, e mudou-se com ele para um sítio. Ficaram oito meses lá. A internação foi depois que ele voltou.

ZH – Durante os oito meses ele usou a droga?

Pai – Não usou. Ele só vinha para cá nos finais de semana. Tinha namorada, jogava futebol, estava bem. Depois disso, ele foi para o São Pedro, teve alta e arrumou um serviço no depósito de uma livraria. Ele tinha moto.

ZH – A moto que ele entregou para os traficantes?

Pai – Sim, a moto era minha. Eu comprei não faz um mês. Ele tinha dificuldades para ir ao trabalho em função de precisar de dois ônibus.

ZH – O senhor achou que ele estava curado do vício?

Pai – Curado, não. Acho que isso não é fácil de curar. Ele toma medicamentos fortíssimos desde que saiu do hospital.

ZH – Como foi a recaída?

Pai – No domingo, após passar o feriadão num sítio com a minha mulher, ele voltou para casa meio calado. A gente ficou preocupada. Nós demos um diazepan e ele foi dormir. Na segunda-feira, como tinha folga, dormiu até tarde. Acordou, almoçou, saiu de casa e voltou uns 40 minutos depois. No final da tarde, foi na namorada. Mais tarde, a sogra dele nos ligou dizendo que ele tinha pedido R$ 20. Nós começamos a nos preocupar. Ele chegou em casa, no final da tarde, quieto. Pediu R$ 5 para sair e tomar cerveja. Dei os 5 pila. Aquela coisa de pai, né... Foi o começo do nosso martírio.

ZH – O que aconteceu depois?

Pai – Ele saiu por volta das seis da tarde de casa e não voltou mais. Nós amanhecemos acordado. Às 12h de ontem (terça-feira), ele nos ligou de um telefone que não era dele. Disse que estava com um amigo. Eu vi tudo. Mas fiquei aliviado. Ele estava vivo. Por volta das 13h, ele ligou para o meu celular chorando. Disse que o haviam assaltado e levado a moto. Lá no fundo eu sabia que não era assalto. Fui numa delegacia e registrei queixa conforme ele me disse. Nesse meio tempo, a minha mulher foi buscá-lo. No carro, vindo para casa, ele começou a chorar a e contou tudo.

ZH – O que aconteceu?

Pai – Ele nos falou que entregou a moto para os traficantes em troca de R$ 250 em pedra. Um policial nos falou que dava umas 50 pedras.

ZH – A moto vale quanto?

Pai – Uns R$ 6 mil. É uma Suzuki Yes, 125, ano 2010. Comprei há 20 dias. Não tenho nem o carnê para pagar.

ZH – O que sente um pai nessa hora?

Pai – Raiva. Culpa por não ter feito alguma coisa, ou ter feito demais. Tu ficas te perguntando, tchê: por quê? Eu tenho um filho. As minhas irmãs têm cinco, e estão todos formados. Tenho quatro irmãos, e todos têm filhos formados. Eles criaram os filhos deles em bairros pobres, miseráveis. Eu criei num bairro nobre. Dei azar.

ZH – A criação de vocês pode ter tido alguma influência?

Pai – Pensando em ser um bom pai, posso ter sido um mau pai. Eu dei muita coisa para ele, desde pequeno. Acho que esse foi o meu erro. E por isso vou ter de pagar por um bom tempo. Mas tenho a minha consciência tranquila.

ZH – Como o senhor chegou até a moto?

Pai – Eu perguntei se ele sabia onde estava a moto, ele disse que sim. Fui na Brigada, contei a história e eles nos ajudaram. O policial disse para mim assim: olha, vou ser franco, se o seu filho tiver coragem de colaborar nós vamos prender o vagabundo e recuperar a moto. Mas não pode dar errado. Se der errado, o senhor não acha mais a moto e o seu filho pode ser morto. Decidi colaborar e arriscar. Isso não pode mais continuar.

ZH – Como foi a ação?

Pai – O meu filho foi orientado a chegar na casa do traficante e a pedir mais droga. Quando o cara fosse entregar o crack, ele deveria acionar o celular, que estava no bolso. A ligação seria a senha para os brigadianos, que estavam próximos, chegar e prender o cara em flagrante. Nada podia dar errado. Quando tocou o telefone do brigadiano, eles correram para pegar o cara. As viaturas que estava disfarçadas entraram na vila. A brigada foi sensacional.

ZH – E a moto?

Pai – A moto tinha sido negociada por um adolescente de 16 anos. Após a prisão, ele ligou para quem estava com a moto. Duas horas depois, quando ainda estávamos na vila, alguém ligou avisando que ela havia sido abandonada.

ZH – O que vocês pensam em fazer agora?

Pai – Eu confio na Justiça. Assim como eu fui lá, falei a verdade, eu espero que eles me deem um pouco de proteção, tchê. Estamos querendo levá-lo para uma fazenda em Soledade. Enquanto isso não acontecer, ele vai ficar em casa, proibido de sair. Agora (às 18h de ontem) ele está sedado, dormindo.

ZH – Vocês estão com medo?

Pai – Um medo terrível, cara! Mas estamos contando com a solidariedade das pessoas, que me cumprimentam pela coragem de encarar e de ir lá enfrentar os vagabundos. Ele estão matando essa gurizada vendendo 300 pedras numa manhã. Esses caras têm de pagar pelo que fazem. Eles estão matando essa juventude.


07 de maio de 2009 | N° 15962
Zero Hora

Noticia completa

Noticia completa

24 de abril de 2009

Mãe relata a dor de ter perdido o filho para o vício do crack

Relutei muito antes de postar essa reportagem, já que me foi instruido não ficar lendo notícias desse porte, pois já estava entrando em vibração com tanta desgraça e por consequência perdendo energia. Mas não consegui deixar de ler tal depoimento, que parece sair de um conto literário. A seguir o sentimento da mãe que matou o próprio filho que se auto destruiu, e também à sua família por causa de crack. Que as pessoas que lerem esse depoimento fiquem atentas a sua volta, por que as drogas infelizmente fazem parte de nossas vidas. E que a Luz possa iluminar essa mãe. Que a Luz possa guiar os passos desse infeliz filho que ignora as Leis Divinas. Que o Amor de Jesus se propague por todo a Terra!!!

LUZ!!! LUZ!!! LUZ para todos nós!!!


***


Mãe relata a dor de ter perdido o filho para o vício do crack
"Hoje vivo um dia após o outro" diz Flávia Costa Hahn após a tragédia que se abateu sobre sua família

José Luis Costa, Renato Gava, Rozanne Adamy | joseluis.costa@zerohora.com.br, renato.gava@diariogaucho.com.br, rozanne.adamy@diariogaucho.com.br


Duas horas e meia após depor à Delegacia de Homicídios e Desaparecidos, a representante comercial Flávia Costa Hahn, 60 anos, recebeu Zero Hora e Diário Gaúcho para falar sobre a tragédia que se abateu sobre sua família desde o domingo de Páscoa, quando empunhou o revólver que matou o único filho, Tobias Lee Manfred Hahn, viciado em crack.

Sentada na sala de sua casa de três pavimentos com piscina na região conhecida como Sétimo Céu, no bairro Tristeza, em Porto Alegre, ela relembrou durante uma hora momentos dramáticos da sua trajetória como mãe, com a ressalva de que não falaria sobre o dia da morte de Tobias.

Veja em gráfico os efeitos do crack no organismo

– Foi um acidente – repetiu, garantindo que foi ela a autora do tiro disparado de um revólver do marido Manfred Oto Hugo Hahn, 75 anos.

A seguir, trechos do desabafo de Flávia:

O FILHO SONHADO

“Fui mãe aos 34 anos. Um filho desejado. Estávamos nos Estados Unidos e nunca tivemos casa própria. Vivíamos como ciganos de um país para o outro. No dia que eu engravidei, a gente decidiu fazer essa casa para o nosso filho. Nasceu aqui, mas logo fomos morar na Venezuela. Eu ficava com ele, não trabalhava. Era um menino espoleta, bagunceiro, hiperativo. Ficou lá até aos nove anos, quando voltamos para o Brasil.”

A MACONHA NO COLÉGIO

“Quando a gente voltou, logo consegui trabalho. Acho que foi ali o meu erro. Pensando que ele estaria bem no colégio, tinha uma pessoa muito boa (uma empregada) cuidando dele. À noite e nos finais de semana, eu estava sempre em casa. Pensei que isso seria suficiente, mas não foi para o Tobias. Ele saía com os amiguinhos, começou com a maconhazinha no colégio. Acho que não fui enérgica o suficiente.”

A SUPERPROTEÇÃO

“Filho único. Ele sempre me dominou. Tinha um jeitinho de pedir as coisas que eu não podia negar. Quando não estava no crack, era muito carinhoso. Era a mãezona dele. Às vezes, eu brigava com meu marido, que era mais enérgico, para defender ele. Foi muito mimado por mim. Acho que foi esse meu defeito.”

O INÍCIO DO PESADELO

“O Tobias usava droga desde os 14 anos. Da maconha, passou para a cocaína. Em 2002, ele se meteu com uma gangue e teve problemas com a polícia. Mas mantinha o vício assaltando, roubando. E eu, como mãe, nem sabia. A gente é sempre a última a saber. Então eu consegui um trabalho em Brasília e fui para lá. O meu marido ficou aqui, desesperado, não aguentou a situação. O Tobias batia no meu marido, maltratava a pessoa que cuidava do meu marido. Então, levei ele para Brasília.”

AS NAMORADAS E A PASSARELA

“Brasília foi um santo remédio. Ele deixou a cocaína, ficou na maconha. Ele teria de ter amigos e não tinha. Passou três meses suando no apartamento. Não sabia que a falta de cocaína dava essa suadeira nele. Conseguiu outros amigos, uma namorada. Fez curso de modelo, cuidava da pele, fazia musculação. Fiquei um ano e meio em Brasília. Ele ganhou dinheiro desfilando, as gurias correndo atrás dele. Era loirinho e chamava a atenção. Depois fui para o Rio. Continuou com a maconha, mas nunca me pediu dinheiro além da mesada de R$ 300. Ele ia à praia, fez curso de guia de turismo e trabalhava como modelo. Até a Xuxa chamou ele para entrevista.”

O RETORNO E O CRACK NA PORTA DE CASA

“O inferno começou em 2006. Voltei para minha casa para ser representante da empresa em que trabalhava. Fiquei aqui, viajando pelo Estado e por Santa Catarina, e ele reencontrou antigos amigos e começou a usar crack direto. Aqui é muito fácil. Vivemos em uma zona residencial classe A, mas se caminha 200 metros e tem uma vila com três traficantes e do outro lado tem um beco com um monte de traficantes. O crack é muito barato. Qualquer um tem R$ 5 para comprar.”

AS INTERNAÇÕES

“Ele não aceitava. A primeira foi pelo meu plano de saúde. Chamei uma ambulância e, enquanto ele dormia, vieram aqui, o pegaram e levaram. Ficou 30 dias na Clínica São José. Saiu de lá bem, tomando remédio, um antidepressivo e um remédio que bloqueia o cérebro e não dá vontade de usar drogas. No momento em que parou com o remédio, voltou para a droga. Internei ele seis vezes. Meu plano de saúde pagava só uma vez por ano e até 15 dias. Era muito caro, R$ 400 por dia. Quando eu não tinha dinheiro, pedia via ordem judicial. Dizia ao oficial de Justiça a hora em que o Tobias estava em casa dormindo e que tinha de vir com a Brigada. Eles chegavam aqui, pé por pé, eu abria a porta, acordava ele, e ele ia para o PAM 3, na Vila Cruzeiro do Sul, aguardando vaga em um hospital em SUS.”

AS ROUPAS QUE VIRAM DROGA

“Em 2007, comprei uma moto nova (Honda 125 cilindradas) para ele, e ele começou a trabalhar como motoboy. Eu viajava muito naquele tempo e não conseguia controlar ele. Depois, ele disse que roubaram a moto. Trabalhou no Clube Jangadeiros, lixando barcos, gostava muito. Consumia tudo que ganhava. Nunca comprou uma peça de roupa para ele. Tudo eu dava. No ano passado, consegui um emprego em uma grande transportadora em Manaus. Comprei a passagem aérea para ele fazer entrevista. O voo saía as 2h, mas ele sumiu. Me deixou com a mala e a roupa nova comprada. Perdi a passagem. Depois, ele vendeu a roupa. Era uma coisa a mais que ele tinha para vender para consumir drogas.”

MÃE VIRA BANCO 24 HORAS

“Quando surtava, ele me batia. Me bateu várias vezes. Às vezes, ele dava tapas no meu rosto e a cabeça voava. Ficava toda machucada. No Natal passado, ele queria dinheiro, eu não tinha, e ele me tirou a soco de casa até o bar do seu Adão, que é meu amigo, aqui perto, para pedir R$ 20. Estava fechado. Ele me empurrou a soco, escadaria acima, até a casa do seu Adão. Eu caía, levantava, ele me empurrava para ir mais rápido. Não tinha ninguém. Tive de voltar em casa, pegar o cartão de crédito e ir no banco sacar dinheiro. Eu era o banco 24 horas dele.”

TROCO ESCONDIDO EM CASA

“Nos dias 30 e nos dias 6 ou 8 , quando meu marido e eu recebíamos, ele infernizava a minha vida. Pedia dinheiro, três, quatro vezes por dia. Eu já deixava escondido. Trocava uns R$ 200 por notas de R$ 5, R$ 10, R$ 20. E quando ele incomodava muito, dava R$ 5. Aí, ele ficava mais uma hora pedindo, a noite toda. Dava dinheiro para ele não roubar outras pessoas. Pela violência dele, podia cometer um crime. Eu tinha de caminhar uns 20 minutos (2,3 quilômetros) até um caixa 24 horas buscar dinheiro. Isso à noite, de madrugada. Ultimamente, eu ia dormir na casa de uma amiga. Meu carro (um Gol) está parado há um ano. Não quis arrumar. Ele vendeu a bateria e o estepe, a chave de roda, e deixei assim.”

ACESSO PROIBIDO AO FILHO

“Primeiro foram as roupas dele. Depois, o meu guarda-roupas. Os meus casacos de pele, meus sapatos. Um dia entrei lá e não tinha mais nada. Depois acabou com a roupa de cama, tapetes. Coisa de valor, ele empenhava com os traficantes por R$ 50. Eu dava o dinheiro e mandava ele buscar. Deixava a casa toda chaveada. Só deixava acesso à cozinha e ao quarto dele. Ultimamente, ele só ameaçava colocar fogo na casa. Tinha medo dele.”

A FAMÍLIA DEPENDENTE

“O crack mantém a gente refém dele. Os familiares, as mães, os pais, pensam 24 horas no crack. A gente também é viciado nela. É uma maldição. Tu pensa: daqui há pouco vou ter de dar dinheiro para o crack. É incrível. A gente fica pensando quando isso vai acabar. De cada mil pessoas, acho que uma pessoa se livra do crack. Nunca perdi a esperança que ele sairia das drogas.”

AS AMEAÇAS E O TIRO

“Nunca pensei que pudesse ter uma atitude radical com o Tobias. Só peguei aquele revólver para assustá-lo. Foi um tiro só. Um acidente. Não direcionei a arma, não apontaria para o rosto dele. Ele passou correndo por mim, estava desnorteado. Tentou me explodir com gás dentro da cozinha, foi dramático. Estou na mão de Deus e da Justiça. A coisa mais preciosa que eu tinha, já perdi. Tudo que vier, vou receber como tem de ser.”

O TRATAMENTO NA PRISÃO

“Me trataram muito bem no presídio (Penitenciária Feminina Madre Pelletier). Menos as detentas. Diziam: ‘a assassina do filhinho? Não a queremos na cela’. Me colocaram em uma solitária, e elas (agentes) me disseram: ‘não se preocupe, a gente está com a senhora’. Me deram café da manhã, almoço. Cheguei lá na madrugada e fiquei até as duas da tarde.”

O ANIVERSÁRIO E O CEMITÉRIO

“A vida parece que parou. O centro das minhas atenções era meu filho. Por mais que me usava para comprar droga, eu estava sempre perto dele. A vida está vazia. Domingo passado era aniversário dele. Fomos ao cemitério, levei flores e rezei por ele. Vou a uma igreja espírita. O pior momento dessa tragédia foi ver o meu filho sem vida. Hoje vivo um dia após o outro.”

UM RECADO ÀS MÃES

“É preciso procurar toda a ajuda, como eu fazia. O crack é tão forte que, quando a pessoa consome muito, bloqueia todo o sistema nervoso. Então, a pessoa não é mais ela. Não se pode desistir nunca. Não tive sorte de salvar meu filho, mas pode ser que outras tenham. Na infância, acho que a mãe deve deixar de trabalhar e se dedicar absolutamente às famílias.”


24/04/2009 - 05h38min
Zero Hora

18 de abril de 2009

Difícil, muito difícil


Quando o psiquiatra Sérgio de Paula Ramos, do alto de seus 35 anos de experiência no tratamento dos dependentes de drogas, em entrevista a ZH (terça-feira, 14 de abril), apontou o álcool como porta de entrada para outras drogas, principalmente entre os adolescentes, não disse nenhuma novidade. Mas tocou num ponto que, de certa forma, acaba sempre sendo evitado. Como reprovar uma substância que é anunciada, alto e bom som? Como controlar uma droga que patrocina, inclusive, eventos esportivos?

O crack é devastador, mas o álcool é o craque das drogas. Sucesso em vendas, muitas vezes é o causador de tragédias do nosso cotidiano. Está infiltrado em quase todas as manifestações de “alegria e descontração” do ser humano. É extensa a nomenclatura de bebidas que, anunciadas charmosamente, no fundo não passam de álcool, misturado a outras substâncias, variando apenas seu teor. Como desejar que um adolescente, em plena “festa da vida”, não se drogue com álcool? Difícil, muito difícil.

A dependência ao álcool é fartamente comprovada. Sua aquisição só não causa maiores reações em seus usuários porque a droga é vendida, praticamente sem controle, em qualquer estabelecimento comercial do ramo. Se fosse proibida, como outras drogas, certamente o alcoolista cometeria qualquer desatino para alcançá-la. Vício é assim. Se você tem um fumante ativo em casa (ou no trabalho), sabe do que estou falando. É quase impossível convencê-lo a não fumar após ingerir algum alimento ou diante de um desafio qualquer. Vício é doença. Tem que ser tratado.

No vício, imperam as emoções. O viciado é incapaz de ouvir a voz da razão. O fumante sabe que fumar causa câncer, envelhece precocemente, deixa os homens impotentes e envenena o leite materno. Mas nem por isso deixa de baforar seu cigarrinho a cada 30 ou 40 minutos. Se você, que não é viciado em nicotina, está por perto, azar o seu. Você é transformado em fumante passivo, que, afirmam os cientistas, é pior que fumar o próprio cigarro. O fumante passivo acaba aspirando a fumaça que o fumante ativo tragou e expeliu. Mas fumar é um charme e... charme coisa nenhuma: é vício. Uma armadilha em que pessoas caem e quando conseguem livrar-se é a duras penas.

Fazendo parte das chamadas preferências nacionais, tanto o cigarro quanto as bebidas alcoólicas sustentam indústrias de peso, que empregam grande número de trabalhadores regulares. Além disso, contribuem com altos impostos ao governo. A maconha, a cocaína e o crack, sendo ilícitos, além de não pagarem impostos, locupletam-se de mão-de-obra clandestina, fora da lei. Mas fazem parte de uma indústria organizada que, por trás de faces miseráveis, alimenta intocáveis barões multimilionários e sem rosto.

Por outro lado, estamos todos, de uma ou de outra forma, drogados. Envolvida em problemas de saúde, uma pessoa pode ver-se na contingência de ter que engolir um número considerável de comprimidos ao dia. Tenho certeza de que os médicos prescrevem-nos com a melhor das intenções. Mas há sempre efeitos colaterais, às vezes, devastadores. Não é de graça que temos drogarias espalhadas por quase todos os quarteirões de nossas cidades. A indústria farmacêutica parece ser um negócio hiperlucrativo. Se estamos doentes e praticamente mergulhados em drogas, nossos adolescentes dificilmente tomarão rumo diferente.

O experiente psiquiatra não tapou o sol com a peneira. Mas certamente sabe que sua afirmação não ecoará. Drogas são drogas. Mas, ao classificá-las em lícitas e ilícitas, os homens criaram um problema praticamente insolúvel para toda a sociedade. É claro que o ser humano sempre precisou de uma válvula de escape. Na dose certa é remédio, dizem uns. Mas como domar a fera oculta num copo, por exemplo? Uma dose chama outra e outra e mais outra. Uma substância inserida em bebidas que crianças e pré-adolescentes crescem ouvindo seus pais chamarem carinhosamente de “a minha cervejinha”, “o meu vinhozinho” e “o meu uisquinho”, dificilmente, num futuro breve, será evitada por eles. Difícil, muito difícil.


Hermes Aquino*
18 de abril de 2009 | N° 15943

Zero Hora

*Músico e publicitário